O trabalho de Letícia Ramos (Santo Antônio da Patrulha - RS, 1976) surge a partir de um entrelaçamento de pesquisas e projetos voltados à tecnologia do registro e à recriação do movimento na formação da imagem. A artista, que constrói o seu próprio aparato fotográfico, no oposto radical da simples captação de imagens, lida também com sistemas de projeção que desenvolve pessoalmente para suas videoinstalações. Invariavelmente, o que parece desejar são as imagens produzidas por seu objeto, e não uma imagem qualquer.

Letícia participou da mostra competitiva Panoramas do Sul do 16o Videobrasil, em 2007, com a obra Panorâmica 01 (2007). Um de seus notáveis inventos exploratórios é a câmera estenopeica (pinhole) de 1,20 metro de comprimento e 1,10 metro de largura. Feita de madeira, alumínio, ferro e tecido, tem seu chassi, que armazena o filme, retirado de um equipamento fotográfico Parvo do século 19. Com 24 perfurações, produz, no mesmo instante e a partir do mesmo ponto, sob diferentes perspectivas, 24 imagens, o que gera repetidas sobreposições e materializa-se, em negativo, numa imagem panorâmica única de 1,20 metro.

Por pontos de vista deslocados do alto de edifícios, através de frestas escondidas na paisagem urbana, ou pela suspensão do tempo decorrido ao rés do chão, os patamares da linha do horizonte que Letícia traça ao olhar da câmera são capazes de fazer-nos rememorar talvez algumas cenas emblemáticas de filmes tão cronologicamente distantes entre si quanto Metropolis, de Fritz Lang (1927), ou Blade Runner – O caçador de androides, de Ridley Scott (1982). Tal qual uma misteriosa visão transformadora de profundidade de campo, em perspectiva futurista-vintage, as duas cidades separadas pelos andares de cima e de baixo são unificadas pelo conjunto de trabalhos da artista, como se por códigos de ficção científica.

É justamente o protagonismo do hábito de construir imagens como se erigem os monumentos da cidade passageira do tempo – arquitetada pelas memórias imprecisas de seus moradores – o que situa as três obras de Letícia Ramos reunidas em Cidade infinita, uma revisão crítica do acervo como curadoria.

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