• Coco Fusco, Bare Life Study #1 (2005), performance

    Coco Fusco, Bare Life Study #1 (2005), performance

O corpo como meio: performances em exposição

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postado em 26/11/2014
Memórias inapagáveis – Um olhar histórico no Acervo Videobrasil reúne registros de performances que provocam questionamentos sobre poder, alteridade, racismo, identidade e violência

Efêmera, imprevisível. A performance é, desde suas experimentações iniciais na década de 1960, um gênero da arte que envolve conflito direto e risco. Comprometido com as múltiplas expressões artísticas contemporâneas desde o início de suas atividades em 1983, o Videobrasil acompanhou o desenvolvimento e a aliança estabelecida entre a performance e o vídeo, numa relação que gerou novas possibilidades para ambas as linguagens.

A própria natureza da performance acabou por uni-la às mídias capazes de perpetuar o ato presencial e temporário. O registro em vídeo é um dos grandes aliados na conservação da história da performance e, frequentemente, única fonte de acesso a eventos que não se repetirão. Embora ofereçam apenas uma ideia do que foram as apresentações originais, os registros de performance se constituem em documentos valiosos na medida em que nos permitem perpetuar, difundir e ter acesso às obras. Além do registro, o vídeo oferece aos criadores uma gama extra de possibilidades ao trazer a obra para uma nova dimensão de tempo e espaço.

Somente até o dia 30 de novembro, o público poderá conhecer no Sesc Pompeia, em São Paulo, alguns importantes registros de performances que fazem parte do Acervo Videobrasil, selecionados pelo curador Agustín Pérez Rubio para compor a exposição Memórias inapagáveis – Um olhar histórico no Acervo Videobrasil. Dentre os 18 trabalhos expostos no Galpão do Sesc Pompeia, que fizeram parte da história do Festival de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil estão quatro registros de performance. São eles Bare Life Study #1 (2005), da norte-americana de origem cubana Coco Fusco; My Possession (2005), do duo alemão-queniano Mwangi Hutter; The Loudest Muttering Is Over: Documents From The Atlas Group Archive (2003), do libanês Walid Raad; e O Samba do Crioulo Doido (2013), do brasileiro Luiz de Abreu, primeira performance a receber o Grande Prêmio do Festival. Estas obras foram selecionadas devido ao resgate de consciência histórica que promovem. Nas palavras do curador, elas colocam “o dedo na ferida, (...) apontam para aquilo que parece ter sido esquecido ou estar desvanecendo ou para contestar, lutar ou mostrar repulsa, ou para trazer de volta a memória”.

Estão no ar no Canal VB novos vídeos com depoimentos de Coco Fusco, Luiz de Abreu, Ingrid Mwangi e de Ayrson Heráclito, que participa da exposição com o vídeo Barrueco (2004), criado em parceria com Danillo Barata. Heráclito apresenta a performance Batendo Amalá (2011) no último encontro dos Programas Públicos da exposição, com tema “As Histórias Renegadas: Memórias Indígenas e Africanas”, que acontece no dia 29 de novembro, a partir das 16h.  

Coco Fusco reagiu aos vídeos e fotos que denunciavam os maus-tratos e a tortura do exército norte-americano contra seus presos políticos em Abu Ghraib e Guantánamo com Bare Life Study #1, performance apresentada na 15ª edição do Festival (2005), especialmente dedicada à performance. Coco vestia uniforme militar enquanto ordenava pelo megafone a quarenta performers – estes em uniformes laranja, cor da vestimenta dos prisioneiros em Guantánamo – que limpassem a rua diante do Consulado dos EUA, em São Paulo, com escovas de dente. A performance de Coco tem papéis bem delimitados, estabelecidos pelos uniformes e pelas relações de poder que denotam. Em depoimento originalmente cedido para o filme Coco Fusco: I Like Girls in Uniforms, disponibilizado no Canal VB, a artista falou sobre alguns conceitos que delinearam sua ação: “Eu vejo papéis construídos socialmente. Um uniforme o identifica com o papel”, disse a artista. Na ocasião, a Polícia Militar foi acionada pelo Consulado e, embora de maneira pacífica, antecipou o término da performance. "Uma ação silenciosa na rua com muita gente é uma declaração visual muito forte", comentou Coco.

A dupla artística Mwangi Hutter participou do mesmo Festival com My Possession. A ambiguidade do título da obra (“minha posse” ou “minha possessão”) carrega as oscilações da ação da queniana Ingrid Mwangi, que apresenta-se plena e no comando, num primeiro momento, para perder o controle sobre seu corpo em seguida. O corpo mestiço que lhe pertence é seu de fato? Que fatores externos, a exemplo de história, política, geografia e cultura regulam esse corpo? Em debate promovido naquela edição, Ingrid revelou compreender a performance em seus aspectos de espelhamento e alteridade: “A performance emprega uma habilidade humana fundamental de se identificar com o Outro. Do ponto de vista do espectador, é como olhar para um espelho: ele é a parte ativa e o performer é a imagem espelhada”. A artista comentou positivamente a experiência de ter sua imagem registrada e transmitida, ao vivo, para o lado de fora do espaço onde acontecia: embora a atmosfera criada pela presença da audiência se perca, novos valores se agregam a exemplo das abstrações do enquadramento, focos, close-ups e diferentes pontos de vista proporcionados pelas câmeras. O vídeo que traz trechos de sua fala unidos ao registro da performance está disponível no Canal VB.

Em 2013, no 18º Festival, o bailarino e performer Luiz de Abreu apresentou a autobiográfica O Samba do Crioulo Doido, primeira performance a ser consagrada grande vencedora do Festival desde sua abertura a todas as linguagens artísticas. A plena incorporação do negro à cultura brasileira não aconteceu, uma vez que o racismo, velado ou explícito, manifesta-se cotidianamente. Luiz declarou em depoimento publicado na íntegra na PLATAFORMA:VB: “Não foi uma situação pontual que despertou o desejo de realizar o trabalho, ele faz parte de um processo de anos. Ser barrado na porta do banco, ser seguido por seguranças em farmácias. Sentia um desconforto no mundo. Queria entender: que corpo é esse que tanto incomoda?”. Emprestando seu título da canção de Stanislaw Ponte Preta (que acabou por se tornar sinônimo daquilo que não tem nexo), O Samba do Crioulo Doido parece ter algum teor cômico, mas se utiliza de estereótipos raciais na intenção de destruí-los. “O que está aí é muito sério, e talvez pela seriedade se torne engraçado. Mas também não estou preocupado em ser sisudo”, disse Luiz ao Canal VB.

A performance de Ayrson Heráclito, Batendo Amalá, criada em 2011, será apresentada pela primeira vez em São Paulo no penúltimo dia de visitação da exposição no Galpão do Sesc Pompeia, dentro do espaço Zona de Reflexão. Na ação, o artista prepara o “ajebó”, comida ritual votiva de Xangô, divindade do candomblé relacionada à Justiça, enquanto evoca seus pedidos pessoais. “Espero que o ritual suscite um sentimento que propicie algum tipo de cura dessas mazelas que nos atingiram, principalmente a diáspora africana advinda da escravidão. É como um pedido para que Xangô lance seu sentido de justiça sobre os fatos ocorridos”, explica Ayrson. “Fico muito feliz quando vejo uma exposição como esta, que fala ‘não esqueça da sua dor, torne produtivo esse estorvo’”, declara o artista, em depoimento publicado no Canal VB.

Um registro da performance Batendo Amalá, especialmente encenada em estúdio em 2013, foi doado por Ayrson Heráclito ao Acervo Videobrasil. “Não se trata do vídeo como registro apresentando o que foi a performance, mas ressignificando a minha ação. Com a videoinstalação, pretendi trazer um pouco do universo e da sensação de estar presente”, conclui o artista.


Saiba mais sobre a apresentação da performance de Heráclito no último encontro dos Programas Públicos da exposição Memórias inapagáveis – Um olhar histórico no Acervo Videobrasil.