VIDEOBRASIL 40 | 19º Videobrasil

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postado em 20/12/2023

Panoramas do Sul tem protagonismo com três exposições e uma mostra paralela do acervo

   

Após estabelecer Panoramas do Sul como eixo principal do evento, em 2013, o Videobrasil seguiu seu constante processo de apostas, inovações e remodelações também na edição seguinte, no 19º Festival de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil, realizado entre outubro e dezembro de 2015 em São Paulo. No novo desenho, a maior mudança foi a potencialização de Panoramas em três exposições: a principal, com 53 artistas escolhidos através de chamada aberta; uma segunda com cinco nomes convidados pela curadoria; e outra com obras de quatro jovens artistas selecionados através de edital, que produziram trabalhos sob acompanhamento dos curadores do festival. Enquanto as duas primeiras ocuparam o Sesc Pompeia, a terceira marcou a inauguração do Galpão VB, novo espaço da associação em São Paulo. Houve ainda uma grande mostra paralela montada a partir do Acervo Histórico Videobrasil, no Paço das Artes, expandindo o evento ao redor da cidade como poucas vezes se tinha visto.

 

 

Com direção artística de Solange Oliveira Farkas e curadoria de Bernardo José de Souza, Bitu Cassundé, João Laia, Júlia Rebouças e do curador assistente Diego Moreira Matos, o festival apresentou obras criadas nas mais variadas linguagens e suportes, sem apontar para um único caminho ou tema. Ao mesmo tempo, elas desenhavam ao menos quatro grandes cenários identificáveis, segundo os curadores: “O primeiro poderia ser definido pelo acirramento da ideia de crise”, relativo à questões políticas e sociais em um mundo repleto de desigualdades e conflitos; o segundo cenário investigava um ambiente pós-utópico, para além da presença humana, no qual “o sujeito está ausente ou é tornado objeto, as paisagens são desoladoras, e a relação com o tempo é ambígua”; o terceiro, por sua vez, trazia obras que revelam “camadas de sexualidade, violência e beleza”, nas quais o corpo ganha destaque seja em escala intimista ou em sua relação com o mundo; por fim, o último cenário reunia trabalhos que anunciavam possibilidades para um novo engajamento do sujeito no mundo – em que houvesse conexão maior entre a natureza e o homem.
 
Sobre este grande espectro de temas e linguagens reunidos na exposição principal, um artigo da revista Ocula resumia: “A mostra central oferece uma infinidade de perspectivas, não em paralelo, mas em relação fluida”. A matéria na Folha de S.Paulo, por sua vez, destacava mais aquilo que unia do que diferenciava os trabalhos: “Embora o enfoque político não fosse um critério da curadoria, boa parte das obras selecionadas para a competição versa nesta direção”. As escolhas eram políticas, confirmava Solange ao jornal, especialmente por apresentarem “uma produção importante que não está mapeada”.

As obras premiadas na edição são um bom exemplo deste enfoque geopolítico. O Grande Prêmio escolhido pelo júri – formado por Hoor Al-Qasimi, N’Goné Fall, Priscila Arantes, Sofia Hernandez e Till Fellrath – ficou com o jovem artista chinês Hui Tao, que em Talk about Body discute questões relativas à identidade e “a aleatoriedade da ideia de pertencimento”. No vídeo, influenciado por novelas chinesas, Tao aparece trajado como uma mulher islâmica, sentado em uma cama e cercado de pessoas que o escutam – colocando em questão tanto ideias hegemônicas de globalização quanto a coexistência de diferentes tempos e culturas. Sunday Best, escultura em bronze de Haroon Gunn-Salie que reproduz um vestido com seu interior vazio, mas modelado como se estivesse ocupado por um corpo feminino, deu ao artista sul-africano o Prêmio Especial SP-Arte/Videobrasil. Espécie de antimonumento, o trabalho faz referência a histórias vividas em um bairro multicultural na Cidade do Cabo que teve sua população negra removida por um decreto do apartheid.

A expansão da rede de parcerias internacionais permitiu também a premiação de nove participantes com residências artísticas em instituições ao redor do mundo. Entre eles, o brasileiro Paulo Nazareth ficou com a residência Arquetopia, em Puebla (México), pela videoinstalação em quatro canais L’Arbre D’Oublier, composta por registros do artista caminhando de costas ao redor de árvores no Brasil e no Benin. Este caminhar, visto como uma busca por “rebobinar a história”, remete à memória da chamada Árvore do Esquecimento, na cidade de Ouidah, em volta da qual homens escravizados eram obrigados a dar sete voltas antes de partir para o novo continente, em um ritual para apagar suas memórias do passado. O turco Köken Ergun, por sua vez, levou o Prêmio de residência da China Art Foundation Red Gate, em Pequim (China), pela instalação Bayrak (The Flag), rodada em um estádio de Istambul na data em que a Turquia comemora, simultaneamente, o Dia da Criança e o estabelecimento de seu parlamento. O imaginário otimista da infância mesclado ao caráter militarista da celebração resulta em uma tensão que explicita a violência do nacionalismo e do patriotismo no país.
 
Também do Oriente Médio, o libanês Roy Dib ganhou o Prêmio de Residência Vila Sul - Goethe-Institut, em Salvador (Brasil), por dois trabalhos: Mondial, vídeo que mistura temor e afeto ao registrar um casal gay que viaja do Líbano à Palestina, passando por territórios que não permitem o livre trânsito; e A Spectacle of Privacy, videoinstalação na qual um casal discute sobre o uso de preservativos. A produção de Dib é marcante por dar voz a uma geração que nasceu, nos anos 1970 e 1980, em meio a conflitos e que tenta fabular novas possibilidades de convivência com a alteridade no Líbano. Pelo vídeo Fire-Followers, Karolina Bregula foi agraciada com a residência no Djerassi Resident Artists Program, em Woodside (EUA). Na obra, a polonesa retrata, em tom de paródia, um ambiente de paranoia criado em uma pequena cidade no norte da Europa atingida por incêndios que destroem seus acervos de arte e que resultam no medo da população em frequentar museus e galerias.
 

 

 

Com a impactante videoinstalação Escenarios II, a artista peruana Maya Watanabe foi agraciada com residência no Kyoto Art Center (Japão). A partir da filmagem de um ambiente desértico, sem presença humana, no qual um carro em chamas se desintegra, o vídeo nos leva a crer que algo ali sucedeu, criando um mistério insolúvel para o espectador. De outro canto do mundo, a australiana Pilar Mata Dupont realiza em Purgatorio uma espécie de opereta brechtiana sobre a burocracia dos Estados nacionais modernos. O vídeo, que deu a ela a o Prêmio de Residência Wexner Center for the Arts (EUA), apresenta esquetes em que personagens “desmedidos, ridículos e kafkianos” se mostram responsáveis pela desgraça dos grupos marginalizados da sociedade.

Além de Nazareth, outros quatro brasileiros foram premiados na edição. Luciana Magno foi a ganhadora da residência Delfina, em Londres (Inglaterra), por Trans Amazônica, vídeo em que registra seu ato performático em meio a trecho inacabado da estrada. Com seu longo cabelo escondendo quase todo o corpo, a artista assume posição semelhante àquela em que indígenas são enterrados; a dupla Aline X e Gustavo Jardim, por sua vez, ficou com a residência na Kooshk Residency, em Teerã (Irã), pela videoinstalação Tocaia, na qual uma manada de bois mira enfaticamente a câmera, criando uma tensão em que não se sabe quem é o ameaçador ou o ameaçado – os animais ou o espectador. Por fim, Clara Ianni levou a residência da A-I-R Laboratory (Polônia) pelos desenhos da série Linhas e pelo vídeo Forma Livre, no qual croquis de Brasília ilustram os áudios de entrevistas em que os arquitetos Oscar Niemeyer e Lucio Costa são questionados sobre o massacre de trabalhadores candangos durante a construção da capital federal. Interessada nas discrepâncias entre discurso e prática, a artista revela duas figuras célebres que se recusam a admitir uma tragédia.

Se a relação não se dava de modo explícito, é curioso pensar que o trabalho de Ianni foi apresentado em 2015, no momento em que Brasília surgia diariamente aos olhos da população como símbolo da crise política e econômica que avançava no Brasil. A utopia de um país moderno e próspero – que teve força nos tempos de Niemeyer e Costa, antes do golpe de 1964, e voltou a ganhar terreno na primeira década dos anos 2000, no governo Lula – destoava drasticamente do contexto em que o 19º festival foi realizado, quando a tensão política se acentuava e as forças conservadoras ampliavam seu espaço no poder. Um ano depois, em 2016, a presidenta progressista Dilma Rousseff sofreria um golpe parlamentar que levaria seu vice, o conservador Michel Temer, ao cargo mais alto do país.     
 
Finalizando a premiação de Panoramas do Sul, ficaram com menções honrosas três vídeos: The Disquiet, do libanês Ali Cherri; Gamsutl, da russa Taus Makhacheva; e Excuse me, while I disappear, do sul-africano Michael MacGarry. Todos os artistas agraciados ganharam também o troféu original produzido pelo artista Efraim Almeida, uma peça em que dois olhos esculpidos em bronze e acrílico fazem referência a Santa Luzia (protetora da visão) e evocam a própria palavra que dá nome ao festival: vídeo, do latim video, “eu vejo”.

Ainda na exposição principal, três performances se destacaram, dando sequência ao enfoque histórico do Videobrasil neste tipo de linguagem: em VOSTOK _cineperformance, de Letícia Ramos, a projeção de um vídeo ficcional e poético sobre uma expedição submarina foi acompanhada da execução ao vivo de trilha sonora arranjada para orquestra; já Fancy em Pyetà, segundo ato, de Rodolpho Parigi, apresentava a anti-heroína Fancy em posição estática, desempenhando o papel de Virgem Maria e tomando nos braços um Jesus Cristo negro; na performance Oiko-nomic Threads, por fim, os gregos Marinos Koutsomichalis, Maria Varela Afroditi Psarra ativaram a instalação de mesmo nome, na qual uma máquina de tricô a um computador combinava dados do Serviço Nacional de Emprego grego com padrões helênicos tradicionais, gerando novas tramas e motivos.

 

Artistas convidados
 
Também no Sesc Pompeia, somava-se à mostra principal a exposição dos cinco convidados – Abdoulaye Konaté, Gabriel Abrantes, Rodrigo Matheus, Sônia Gomes e Yto Barrada –, com um galpão inteiramente dedicado às suas obras de grandes dimensões. Pensada a partir da obra de Konaté – malinês com grande reconhecimento internacional, mas pouco visto no Brasil –, ela traçava aproximações e contrastes entre os trabalhos de artistas que, “com uma miríade de estratégias, atestam a potência das vozes que falam do Sul e desde o Sul”, segundo os curadores. Para a mostra, Konaté criou um conjunto exuberante de três têxteis inspirado no encontro que teve com indígenas guarani no litoral de São Paulo. O processo de produção do trabalho, comissionado para o festival e posteriormente apresentado na 57ª Bienal de Veneza, resultou no documentário Cores e composições (da série Videobrasil Coleção de Autores), que registrou ainda o artista em períodos na Mali e na Dinamarca. Também no universo dos têxteis, Gomes concebeu Deslocar, obra em que tecidos amarrados, torcidos, enrolados e costurados remetem tanto à infância da artista no interior de Minas Gerais quanto a aspectos sociais e culturais do país.
 
O outro brasileiro integrante da exposição foi Rodrigo Matheus, que criou uma instalação em larga escala – Mauser & Cia – ligada à própria história do Sesc Pompeia, localizado em uma antiga fábrica de tambores. Ao pendurar tambores, cobrir o chão de areia e espalhar guindastes no espaço, o artista criava uma zona de instabilidade e trazia para dentro do galpão as “ruínas de sua história”. A francesa de origem marroquina Yto Barrada, por sua vez, apresentou Wallpaper Tangier, uma fotografia impressa em grande dimensão –com estética semelhante à de um papel de parede – através da qual levanta questões sobre identidades, fronteiras e imigração. Parte de sua investigação sobre o Estreito de Gibraltar, que separa Europa e África, a obra questiona a ideia distorcida da existência de uma vida de facilidades do outro lado das águas, colocando em tensão o real e o desejado.
 
Completando o conjunto de obras que refletia “a trama do tecido social rugoso e esgarçado que compõe o cenário político em princípios do século 21”, nas palavras dos curadores, o português Gabriel Abrantes apresentou Liberdade, vídeo rodado em Angola que expõe ao mesmo tempo a relação íntima de um casal e questões ligadas à imigração. O português ganhou ainda uma mostra paralela no 19º festival, com a exibição de cinco de seus filmes que apresentam uma visão iconoclasta da história, da arte e do cinema, subvertendo elementos dos gêneros hollywoodianos – comédia romântica, ficção científica ou o filme de ação – para falar dos impactos da globalização, de questões de gênero e da falência das utopias.

 

 

   

Obras comissionadas no Galpão VB

Encerrava o eixo principal do festival, Panoramas do Sul, a exposição dos projetos comissionados, com obras de artistas selecionados a partir de edital aberto em 2014. Ting-Ting Cheng, Cristiano Lenhardt, Carlos Monroy e Keli-Safia Maksud ocuparam o Galpão VB, resultando em uma exposição com diferentes estratégias, mas onde percebia-se que o lúdico e a cor ganhavam força ao explorar variados traços e identidades culturais e, ao mesmo tempo, as tensões que caracterizam as regiões do mundo de onde provinham esses artistas.

A queniana Keli-Safia Maksud, por exemplo, apresentou na instalação Mitumba uma série de tecidos estampados que, mesmo com estampas provindas da cultura africana, eram produzidos de fato na Holanda. Ao serem alvejados no decorrer da exposição, remetiam ao processo violento de branqueamento a que foram submetidas as populações negras ao longo da história colonial. A taiwanesa Ting-Ting Cheng, de outro modo, também trazia as ideias de pertencimento (ou a falta dele) em The Atlas of Places Do Not Exist, uma biblioteca com livros sobre lugares que não existem, opondo os conceitos de existência e visibilidade.
 
Completavam a mostra as obras de dois artistas sul-americanos: o brasileiro Cristiano Lenhardt, que no vídeo Superquadra-Saci aborda de modo poético – e frenético – a oposição entre a arquitetura moderna e racional de Brasília e o Saci, personagem folclórico associado à desordem e ao irracional; e o colombiano Carlos Monroy, autor de uma das obras mais chamativas, a instalação Llorando se foi. O Museu da Lambada. In memoriam de Francisco “Chico” Oliveira, que reunia em si uma série de objetos culturais latino-americanos – um automóvel com coqueiros, tecidos tradicionais, manequins, vestimentas, discos e revistas – e levantava debate sobre a hipersexualização no continente. A partir da história de apropriação (ou plágio) de uma canção boliviana que acabou estourando no Brasil, Monroy levanta também questões sobre direitos autorais, não apenas de modo documental e analítico, mas também ficcional e surrealista.   

Espaço fundamental na história do Videobrasil, o galpão VB, na zona oeste de São Paulo, abrigaria nos anos seguintes mostras individuais de nomes como Akram Zaatari, Cinthia Marcele, Giselle Beiguelman, Haroon Gunn-Salie e Minerva Cuevas, além de coletivas de grande repercussão como Resistir, reexistir, sob curadoria de Gabriel Bogossian, e Agora somos todxs negrxs?, curada por Daniel Lima.


O acervo em exposição paralela
 
Cada vez maior e mais relevante no trabalho do Videobrasil, o acervo da instituição – que já havia ganhado espaço central na edição anterior com a instalação celebrativa 30 anos – foi mais uma vez ativado com a exposição paralela Quem Nasce Pra Aventura Não Toma Outro Rumo, um recorte de vídeos históricos feito pelo curador Diego Matos para ecoar as reflexões levantadas no festival. Ao olhar para um passado frutífero do festival, pelo qual passaram centenas de artistas do Sul Global ao longo de três décadas – de figuras experimentais e undergrounds até nomes mais pops e consagrados –, Solange ressaltava a necessidade de deixar este acervo sempre vivo e acessível, impedindo que se tornasse uma espécie de depósito parado no passado. “Desse modo, a exposição reafirma o papel da coleção como motor que orienta nosso trabalho e permite vislumbrar novas relações entre a produção artística e a realidade contemporânea”, afirmava Solange.

 

 

 

Entre os 16 participantes selecionados por Matos para expor no Paço das Artes (dentro da Universidade de São Paulo) estavam os brasileiros Cao Guimarães, Carlos Nader, Cristiano Lenhardt, Geraldo Anhaia Mello, João Moreira Salles, Karim Aïnouz, Marcellvs L. Marcelo Gomes e Rita Moreira, e os estrangeiros Claudia Aravena (Chile), Clive van den Berg (Zâmbia), Malek Bensmaïl (Argélia) e o coletivo The Otolith Group (Inglaterra/Gana). Entre as obras expostas, participavam desde realizações consagradas no universo do vídeo brasileiro, como Parabolic People, da carioca Sandra Kogut – premiado no 9º Videobrasil, em 1992 –, até trabalhos estrangeiros recentes como The Sun Glows over the Mountains, que rendeu à israelense Nurit Sharett prêmio de residência na edição anterior do festival. Sobre este conjunto plural, Matos ressaltava as conexões e diálogos entre as obras, especialmente através do pertencimento comum ao Sul geopolítico do mundo: “Trata-se de um olhar que se impõe do sul ao norte por meio de razões poéticas, de outras histórias e ficções, dos dissensos  frente ao campo social normativo, como também de outros lugares – mapeados geograficamente, mas excluídos da cultura hegemônica”, escrevia.
 
Como sempre, uma série de programas públicos e workshops foi pensada para ativar as exposições e aprofundar os debates nelas levantadas. Curadores, pesquisadores, representantes de instituições e vários dos artistas participantes do festival falaram de seus trabalhos, dos olhares contra-hegemônicos, das novas possibilidades artísticas no mundo contemporâneo e do papel crucial das residências artísticas no universo da arte. Workshops com Carlos Monroy, Ting-Ting Cheng e Abdoulaye Konaté, ligados às obras que expuseram no festival, completaram as atividades abertas ao público.

O lugar político e combativo do Videobrasil mais uma vez ficava latente na constelação desenhada nas quatro mostras e atividades públicas do festival, em sua 19ª edição – sem que em nenhum momento se perdesse o foco no experimentalismo, na qualidade estética e formal dos trabalhos. Uma entrevista com Konaté sobre sua produção explicitava bem este caminho do festival: “Sempre procurei trabalhar com os problemas sociais, mas a estética – o trabalho com a cor, a composição – também sempre me interessou muito. Os fenômenos sociais que mais me interessam são as tragédias que atingem a sociedade, e que eu apresento como interrogações, perguntas, questionamentos. Mesmo que não tenha a solução, chamo a atenção do público para esses temas”. E ele concluía: “O conjunto humano inteiro é uma riqueza universal. Temos que fazer o que for preciso para preservar o que é positivo em culturas diferentes”.

De algum modo, o texto de apresentação do então diretor regional do Sesc São Paulo, Danilo Santos de Miranda, amarrava o conjunto apresentado e situava a relevância do festival (e das artes de modo mais amplo) em um contexto sociopolítico complexo, conturbado, muitas vezes paralisante: “Indiferença e conformismo tendem a ocultar certo mal-estar provocado pelas múltiplas demandas da vida contemporânea. Uma forma de chacoalhar esse estado de coisas é promover momentos de suspensão e estranhamento, capazes de cultivar outras possibilidades de ser e estar no mundo. Esses momentos de suspensão podem ser alcançados de diversas maneiras, em especial pelas artes”. No caso do 19º Videobrasil, das artes produzidas no Sul, como afirmavam os curadores: “As novas formas de circulação e os diferentes trânsitos criados hoje alteram as bússolas, mas não podemos ignorar que há ainda caminhos de poder calcados em submissão e que, de variadas formas, esses trajetos encontram um passado colonial e uma geografia de opressão. A história deixa-nos um passivo e parece que, para o futuro, ainda estamos assoberbados de passado”.

 

Por Marcos Grinspum Ferraz

*a nomenclatura utilizada para intitular a principal mostra organizada pelo Videobrasil, hoje chamada Bienal Sesc_Videobrasil, passou por adequações ao longo dos anos. As mudanças se deram a partir da percepção dos organizadores sobre as características de cada edição, especialmente no que se refere ao seu formato; duração; periodicidade; parcerias com outras empresas e instituições; e à expansão das linguagens artísticas apresentadas. Os principais reajustes no título das mostras foram: inserção do nome da empresa parceira Fotoptica entre a 2ª (1984) e a 8ª (1990) edições; a inclusão da palavra “internacional” entre a 8ª e a 17ª (2011) edições, a partir do momento em que o evento passa a receber de modo intensivo artistas e obras estrangeiros; o uso do termo “arte eletrônica” entre a 10ª (1994) e a 16ª (2007) edições, quando se percebe que a referência apenas ao vídeo não dava conta dos trabalhos apresentados; a inclusão do nome do Sesc, principal parceiro da mostra nas últimas três décadas, a partir da 16ª edição; e a substituição de “arte eletrônica” por “arte contemporânea” entre a 17ª edição e a 21ª (2019) edições, a partir do momento em que o foco se expande para as mais variadas linguagens artísticas. A mais recente mudança significativa se deu em 2019, na 21ª edição, quando o nome festival é substituído por bienal, termo mais adequado a um evento que já vinha sendo realizado bianualmente e com uma duração expositiva de meses, não mais semanas.

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Imagens:
Acervo Histórico Videobrasil
Everton Ballardin, Iara Morselli, Denise Andrade, Tiago Lima / Acervo Histórico Videobrasil 

1. Cartaz do décimo nono Videobrasil, por Angela Detanico e Rafael Lain.

Galeria 1
1. João Laia, Júlia Rebouças, Bernardo José de Souza, Bitu Cassundé e Solange Farkas.
2. Danilo Santos de Miranda e Solange Farkas

3. Abertura do festival no Sesc Pompeia.
4. “Fancy em Pyetà, segundo ato”, de Rodolpho Parigi.
5. Workshop Memória tecida: monotipia vista do Mali, com Abdoulaye Konaté.
6. “Mauser & Cia”, de Rodrigo Matheus.
7. Evento de premiação.
8. Exposição no Galpão VB.
9. “VOSTOK _cineperformance”, de Letícia Ramos.
10. Abertura do Galpão VB.

Galeria 2
1. "Talk about body", de Hui Tao.
2. "Forma Livre", de Clara Ianni.
3. "L’Arbre D’Oublier", de Paulo Nazareth.
4. "Bayrak (The Flag)", de Köken Ergun.
5. "Trans Amazônica", de Luciana Magno.
6. "Fire-Followers", de Karolina Bregula.
7. "Tocaia", de Aline X e Gustavo Jardim.
8. "Escenarios II", de Maya Watanabe.
9. "Mondial 2010", de Roy Dib.
10. "Purgatorio", de Pilar Mata Dupont.
11. "Sunday Best", de Haroon Gunn-Salie.
12. "Excuse me, while I disappear", de Michael MacGarry.
13. "Gamsutl", de Taus Makhacheva.
14. "The Disquiet", de Ali Cherri.

Galeria 3
1. Público e performers ao redor de “Llorando se foi. O Museu da Lambada. In memoriam de Francisco ‘Chico’ Oliveira”, de Carlos Monroy.

2. Abdoulaye Konaté.
3. A instalação de Carlos Monroy.
4. Detalhe da instalação de Carlos Monroy.

5. Diego Matos e Priscila Arantes.
6. O Paço das Artes, na Universidade de São Paulo.
7. O troféu da edição, por Efraim Almeida.
8. A performance-instalação “Oiko-nomic Threads”, de Marinos Koutsomichalis, Maria Varela Afroditi Psarra.
9. Sônia Gomes durante a produção de “Deslocar”.
10. Encontro “Rede de Residências”, parte dos programas públicos.