Campos de ressonância | texto curatorial
Campos de ressonância
Campos de ressonância propõe uma cartografia da videoarte dos anos 1970 aos dias atuais, construída a partir do encontro entre obras de diferentes territórios e contextos históricos. A exposição reúne trajetórias artísticas que desenvolveram relações distintas com a imagem eletrônica e forjaram, para além dos circuitos dos Estados Unidos e da Europa Ocidental, caminhos alternativos rumo ao contemporâneo.
A exposição coloca em diálogo três conjuntos de obras. O Acervo Videobrasil, constituído desde 1983 ao longo de sucessivas edições do Festival e da Bienal Videobrasil, reflete as transformações da imagem em movimento a partir das perspectivas do Sul Global. O recorte do MAC USP parte do núcleo do acervo formado durante a gestão de Walter Zanini, quando a criação do Setor de Vídeo, em 1977, transformou o museu em um laboratório de produção, experimentação e circulação da imagem eletrônica. Reunida pela GES-2 House of Culture, a seleção soviética e russa percorre a história do cinema e do vídeo experimentais de 1970 até os dias atuais. Inicia com os experimentos pioneiros do grupo Prometeu, sediado em Kazan, e prossegue trazendo alguns momentos do conceitualismo de Moscou, das cenas underground do final do período soviético, da reorganização do campo artístico após 1991 e das práticas contemporâneas.
Dispostas lado a lado, essas obras revelam ressonâncias inesperadas: recorrências, desvios e tensões capazes de reconfigurar a forma como cada obra e cada contexto são interpretados. Delas se desenham os quatro campos que dão título e estrutura à mostra. Entendidos como questões persistentes nas práticas e poéticas do vídeo, esses campos funcionam como atratores que se transformam ao longo do tempo e reúnem, num mesmo espectro, obras de épocas e geografias distintas. Corpos, gestos e protocolos de ação situa o corpo no centro da relação com a câmera, por meio de coreografias, regras e desvios; Linguagens em experimento aborda o dispositivo como meio de contestar o visível e o dizível; Narrativas pessoais e elaboração da memória apresenta o vídeo como forma ensaística situada entre a experiência pessoal, o arquivo e a memória coletiva; e Televisão e reescritas da história reúne apropriações da linguagem televisiva e intervenções nas narrativas públicas.
No Percurso expositivo, obras das três seleções são dispostas cronologicamente, acompanhando as transformações nos suportes e regimes de imagem. Na sala Imagens e vestígios, quatro programas em loop agrupam obras do Acervo Videobrasil em torno desses quatro vetores temáticos, aos quais se acrescentam outras camadas interpretativas: uma cartografia histórica entrecruza acontecimentos políticos, tecnologias da imagem e da comunicação, bem como exposições, movimentos e coletivos, revelando tanto as trocas entre esses circuitos quanto as condições materiais e institucionais sob as quais as obras foram criadas. Vitrines com itens do acervo do MAC USP e dao Videobrasil apresentam fragmentos materiais dessas histórias. Objetos, catálogos, fotografias e documentos enriquecem a vivência das obras ao evocar a memória dos processos, encontros e redes que possibilitaram sua produção e circulação. A exposição apresenta-se, assim, como uma proposta de pesquisa em aberto que é um exercício de reescrita: uma história da videoarte composta por conexões, lacunas e reverberações.
Solange Oliveira Farkas · Videobrasil
Alessandra Bergamaschi · Videobrasil
André Pitol (curador adjunto) · Videobrasil
Esther Hamburger · MAC USP
Heloisa Espada · MAC USP
Andrei Vasilenko · GES-2 House of Culture
Dmitry Belkin · GES-2 House of Culture