Texto de curadoria geral 2019

Comunidades Imaginadas

Em dezembro de 2017, a Organização Mundial do Comércio, reunida em Buenos Aires, lançou um comunicado em que criticava a “tendência a rejeitar o estrangeiro, o importado, rejeitar o global”, vista na política comercial dos EUA e de outros países associados à OMC. Em abril de 2018, palestinos prepararam uma grande manifestação contra os setenta anos de Israel e da Nakba, enquanto a Itália, a Inglaterra e outros países da Europa veem ressurgir movimentos que reivindicam a herança fascista do continente. Por todos os lados e a partir de diferentes matizes do espectro político, o nacionalismo retorna como tema-chave para a compreensão das disputas que moldam este nosso tempo, deixando no ar a pergunta sobre a duração e o alcance desse novo ciclo regressivo.

Nesse contexto, a 21ª Bienal de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil | Comunidades imaginadas toma de empréstimo o título do clássico estudo de Benedict Anderson sobre o surgimento do nacionalismo para investigar como poéticas oriundas do Sul vêm elaborando o fenômeno. Interessa, no entanto, não nos atermos somente às comunidades imaginadas em torno de Estados-nação e à ressurgência do nacionalismo. Aqui, ultrapassando o partido de Anderson, é pertinente considerar também outras comunidades, criadas por imaginações distintas daquelas que fundaram os Estados nacionais.

Ao estabelecer um chão comum a todas as imaginações comunitárias, o partido curatorial da 21ª Bienal relativiza, por um instante, as antinomias que até hoje orientaram e fundamentaram as edições passadas do Festival, em nome de um exercício imaginativo de maior alcance. Assim como Pier Paolo Pasolini concebeu um Terceiro Mundo transnacional, que começava nas periferias de Roma e se estendia aos países então incluídos nessa categoria, aqui é possível incluir comunidades que existem às margens dos Estados-nação ou em suas brechas. Contemplamos, desse modo, comunidades de povos originários, organizadas sem ou contra um Estado; comunidades multiespécie, tal como imaginadas pelo perspectivismo ameríndio; comunidades religiosas ou místicas, concebidas a partir de compreensões transcendentes da existência; comunidades divididas por fronteiras desenhadas pelo colonialismo ou refugiadas de seus territórios originais por qualquer motivo; comunidades fictícias, ou utópicas, ou clandestinas, que gerem práticas políticas minoritárias, ou aquelas constituídas nos universos subterrâneos de vivências sexuais e corpos dissidentes, contra-hegemônicos ou não ocidentais.

Em seu livro, Anderson constata que “a condição nacional é o valor de maior legitimidade universal na vida política dos nossos tempos”. Tendo em vista essa afirmação, cumpre questionar-se sobre como operam as simbolizações nas margens dessa “legitimidade universal” política produzida pelas identidades nacionais. Se o partido do Sul trata de investigar a produção simbólica das margens dos discursos hegemônicos do poder, onde se situam as poéticas oriundas da margem da margem? Que centro de poder lhes serve como modelo? Almejam alcançá-lo, como algumas daquelas oriundas do Sul? Espelham-se em alguma história (da arte?), articulam formas de distinção? Em nome de que esses homens e mulheres continuam a simbolizar, a despeito de tudo? Que línguas e que linguagens a imaginação dessas comunidades sem Estado mobiliza? Sem abandonar a ambição panorâmica do evento nem seu habitual foco geopolítico, esta edição pretende alargar o repertório de questionamentos que orientam nosso trabalho, buscando, com isso, ampliar a diversidade das vozes que ouvimos.

Texto de curadoria Solange Farkas, 2019

Bienais da Urgência

Com novo nome, a 21ª Bienal de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil honra uma longa história de mudanças estratégicas e ajustes de rota. Como ao internacionalizar sua mostra principal, em 1990, ao definir seu foco na produção do Sul global, em 1994, e ao abrir-se a todas as linguagens artísticas, em 2011, o Videobrasil volta a afirmar sua natureza permeável aos tempos: organismo vivo, em atualização constante, autoriza-se, de tempos em tempos, a se desfazer de traços daquilo que deixou de ser para lançar-se a experiências que o colocam ainda mais claramente na direção do que já é.

O novo nome faz mais que sacramentar uma periodicidade. Ele reflete a percepção de que nossa lógica estrutural, nossa prática investigativa e nossas aspirações curatoriais nos aproximam, mais que de festivais multiculturais, do papel desempenhado hoje pelas bienais internacionais de arte. Em especial aquelas que, sobretudo na última década, vêm contribuindo para desenhar um panorama mais diverso e instigante da produção global, ao dar visibilidade a artistas e propostas ainda pouco apreciados e/ou oriundos de regiões de menor representatividade no circuito tradicional.

Grandes, como Sharjah, nos Emirados Árabes, que em dez anos ganhou protagonismo e se impõe fortemente no circuito das bienais europeias, pequenas ou de médio porte, como Cuenca e Dak’Art, ou icônicas, mesmo lutando com enormes dificuldades, como Havana, muitas compartilham o desejo de dar a conhecer o que há de mais vigoroso na produção de determinado local ou região e, ao mesmo tempo, de ajudar a suprir a falta de uma articulação significativa para a arte contemporânea realizada fora do eixo tradicionalmente abastado, mapeado e estabelecido.

Na contramão de bienais espetaculosas e superlativas, cujas escolhas sugerem, cada vez mais obviamente, pouca independência – quando não franca promiscuidade – em relação ao sistema e ao mercado das artes, essas mostras são construídas a partir de olhares curatoriais plurais, necessariamente inquietos e dispostos a arriscar. Sua ambição não é sempre produzir impacto para além de seu território, mas sim devolver a arte ao lugar onde ela ganha relevância: na dimensão crítica, desassossegada, criadora de mundos.

Nossa mudança de nome tem, portanto, um aspecto pragmático, na medida em que nos alinha ainda mais a nossos pares no mundo: as instituições e os eventos que, como nós, trabalham para construir e fortalecer um circuito paralelo para a arte produzida nas regiões que estão fora do foco usual. E que, sem isentar-se diante das questões urgentes do nosso tempo, escolhem iluminar curadorias, manifestações e reflexões que aportem algo de relevante ao pensamento sobre arte e seu papel em um contexto de crise econômica e retrocesso político.


O desejo de mapear a produção das regiões de passado colonial do chamado Sul global – para, de fato, revelar pesquisas que ainda não foram vistas e artistas de quem ainda não se ouviu falar o suficiente – segue nos movendo como Bienal. Para isso, mantivemos o mecanismo que é o fundamento de nossa pesquisa: a convocatória aberta. Só ela garante condições igualitárias de acesso a artistas que estão fora dos circuitos de visibilidade e que, sem contar com qualquer chancela crítica ou de mercado, constituem revelações potenciais.

Até aqui, as linhas curatoriais que compunham o desenho de nossas exposições emergiam do próprio conjunto de trabalhos selecionados. Nesta edição, o princípio se mantém, mas com uma variação importante: pela primeira vez, experimentou-se propor aos participantes, já na convocatória, um tema norteador. O motivo escolhido, Comunidades imaginadas, contrapõe aos nacionalismos recrudescidos de hoje uma utopia de reconstrução do mundo que parte de novas articulações e coletividades, relacionadas a identidade, afeto e afinidade.

Derivado do ensaio homônimo de Benedict Anderson, o conceito foi uma contribuição do pesquisador e curador Gabriel Bogossian, que também teve papel decisivo nas transformações postas em prática a partir desta edição, mas em estudo desde a anterior. Curador-adjunto da Associação Cultural Videobrasil desde 2017, Bogossian integra, com os convidados Luisa Duarte e Miguel Angel López, o núcleo de curadores desta Bienal. Cada um aporta ao processo uma pesquisa própria, que reforça lugares de fala, amplia temas de reflexão e aprofunda a proposta curatorial. Bogossian tem interesse especial pela representação visual dos povos indígenas brasileiros; López, pela produção sul-americana e caribenha e as articulações dos corpos dissidentes na cena contemporânea; e Luisa Duarte, pela expressão artística brasileira em sua dimensão política, tanto em uma perspectiva histórica quanto no presente.

Depois das últimas eleições brasileiras, cumpre questionar que comunidades ainda podem, mais que imaginadas ou supostas, ser visíveis e vividas cotidianamente. Alvos preferenciais dos eleitos, LGBTQI+[1], negros, indígenas, mulheres e outros grupos minorizados aprofundam suas práticas comunitárias em resposta, buscando garantir direitos arduamente (e há tão pouco tempo) conquistados. Mais que se superpor e mesclar, as comunidades possíveis parecem ganhar contornos mais definidos e regras mais rígidas de pertencimento.

Explorando os caminhos indicados em seu partido curatorial, a 21ª edição da Bienal de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil reafirma sua posição a favor dessas comunidades minorizadas, colocando em foco, ao mesmo tempo, sua produção artística e a luta a favor de seus direitos. Por isso, além das ações que normalmente mobilizam nossa rede internacional de instituições parceiras para reforçar a convocatória em regiões de pouca capilaridade e circuitos desarticulados, nesta edição foram feitos esforços em direção a segmentos específicos.

A ideia era, por exemplo, garantir a presença de artistas que só são incluídos em mostras coletivas de arte contemporânea de caráter temático, como se pertencessem, de alguma forma, a uma espécie à parte. Às vezes travestida de deferência, essa modalidade de apagamento atinge, por exemplo, artistas de etnias indígenas e/ou povos originários. Para fazer com que a convocatória chegasse até eles, contamos, no Brasil, com a ajuda de organizações que são referência na relação com nossos povos indígenas, como o Instituto Socioambiental, ou no fomento de sua produção audiovisual, como a Vídeo nas Aldeias, de Vincent Carelli. Na frente internacional, foram acionadas agências que apoiam a produção cultural de povos originais em países europeus, no Canadá, na Austrália, nos Estados Unidos e na Nova Zelândia.

A convocatória para a 21ª Bienal foi respondida por mais de 2 mil artistas de 105 países. O trabalho exaustivo de análise e seleção não levou em conta apenas as propostas apresentadas especificamente para o evento, mas também o portfólio de cada artista inscrito. Para criar um recorte representativo das principais inquietações e práticas reveladas pelo conjunto das obras, eu e os curadores contamos com a colaboração da uruguaia radicada na Bahia Alejandra Muñoz e os brasileiros Juliana Gontijo e Raphael Fonseca, curadores, críticos e professores com trânsito por campos como história da arte, arquitetura e educação.

Para amplificar questões urgentes colocadas pelo conjunto das obras selecionadas, trouxemos para dentro dele trabalhos de outros cinco artistas, os dois primeiros comissionados pela Bienal: Rosana Paulino, que pela primeira vez se arrisca a trabalhar com vídeo, aborda questões de memória, ancestralidade e identidade negra; Thierry Oussou, do Benim, que explora a presença inflamável da memória colonial no presente;Andrea Tonacci, um precursor na militância audiovisual pelas etnias indígenas brasileiras; a mexicana Teresa Margolles, que trata da violência da experiência social nos países latinos, sobretudo contra as mulheres; e o fotógrafo sírio Hrair Sarkissian, cujas imagens remetem ao destino de refugiados e perseguidos políticos. Escolhidos por critérios poéticos e de representatividade, os cinco aportam artefatos de enorme potência ao debate sobre ancestralidade, descolonização, comunidades indígenas, negritude e violência do Estado.


Divido com os curadores a responsabilidade pelos conteúdos das três plataformas que compõem a 21ª Bienal: o segmento expositivo que, pela primeira vez, reúne, no mesmo espaço, artistas e coletivos selecionados e convidados, num total de 55, vindos de 28 países da América Latina, África, Ásia e Oriente Médio; os programas públicos, que se estendem até janeiro de 2020, com pensadores e pesquisadores brasileiros e estrangeiros aprofundando temas sugeridos e suscitados pelo conjunto das obras, além de encontros com artistas e performances; e duas publicações, que incluem este catálogo e uma compilação de ensaios destinada a garantir sobrevida às principais reflexões realizadas no contexto do encontro.

Por último, mas da maior importância, enfatizo a presença das mulheres, deliberadamente marcante, em todas as esferas de trabalho e decisão da 21ª Bienal de Arte Contemporânea. Em 2019, os prêmios de residência, aquisição e em dinheiro oferecidos pela Bienal serão atribuídos por um júri exclusivamente femininocomposto por Alexia Tala, curadora-geral da Bienal de Arte Paiz da Guatemala, a curadora independente sul-africana Gabi Ngcobo, a artista Rosângela Rennó, a historiadora da arte Reem Fadda, curadora do Departamento de Cultura e Turismo de Abu Dhabi, e a portuguesa Marta Mestre, que foi docente na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Rio de Janeiro, e hoje ensina história das artes não ocidentais na Universidade Nova de Lisboa.


Em meio às ameaças – renovadas diariamente – que pairam neste momento sobre tantas liberdades e valores fundamentais, é um alento poder reiterar o elogio da diversidade, do pensamento que transforma e do exercício da cultura. Nesse sentido, somos mais gratos que nunca ao Sesc São Paulo, cuja parceria torna possível realizar nosso projeto de inclusão de artistas relevantes e pesquisas necessárias em um circuito de visibilidade e troca. É um orgulho fazer parte, de alguma maneira, do projeto generoso e contemporâneo de formação sociocultural que a instituição vem colocando em prática, de forma tão comprometida, nas últimas décadas.

Pela primeira vez, ocupamos o Sesc 24 de Maio, equipamento que oferece um oásis de lazer e de cultura – em uma arquitetura icônica, no melhor sentido – à população plural de seu entorno, incluindo um contingente grande de refugiados. Para uma Bienal que se dispõe a examinar as repercussões, na arte, da onda nacionalista em curso no mundo e do ciclo regressivo que vivemos – abrindo-se para comunidades sem Estado e sem nação, regidas por laços de origem e místicos, por migrações e dissidências –, não poderia haver espaço mais adequado. 


[1] Sigla que engloba lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, transgêneros, queer, intersexo e assexuados, entre outras identificações.

ASSOCIAÇÃO CULTURAL VIDEOBRASIL. 21ª Bienal de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil. De 9 de outubro de 2019 a 2 de fevereiro de 2020. p. 35-37. São Paulo, SP, 2019.

Texto de curadoria 2019

Imaginações Comunitárias

GABRIEL BOGOSSIAN, LUISA DUARTE, MIGUEL A. LÓPEZ

Comunidades imaginadas, o livro de Benedict Anderson 1 que empresta seu título à 21ª Bienal de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil, é um estudo sobre as origens do nacionalismo e sua expressão administrativa, cultural e política. As nações e as nacionalidades, afirma o autor, são constituídas por exercícios imaginativos nos quais a seleção e o esquecimento têm papel tão importante quanto os conteúdos supostamente originais (ou originários) consolidados nas identidades nacionais. Lilia M. Schwarcz, na introdução da edição brasileira ao livro de Anderson, destaca como exemplo o caso do Brasil: no século 19, “em pleno Império”, nós nos imaginávamos em um país europeu, “no máximo indígena”, enquanto mais de 80% da população era de negros e mestiços.

Atestando o caráter imaginativo da identidade nacional, continua Schwarcz, a mestiçagem, que até então assombrava nossos intelectuais e homens de ciência, passa, nos anos 1930, a ser vista como uma espécie de redenção, e a capoeira, o candomblé e o samba são tomados como símbolos de brasilidade. Contemporaneamente, em nosso mundo saturado de mercadorias, o nacionalismo ainda mobiliza pequenos e grandes afetos, e seus símbolos são vistos, seja nos estádios e nos dias pátrios, seja nas disputas bélicas ou comerciais em curso na arena internacional.

Imaginário não é, está claro, o oposto de real: é preciso, segundo Anderson, imaginar as nações de maneira consistente e sistemática, e mesmo planejá-las, para que se realizem; tal gesto nos vincula a uma rede comunitária e afetiva de sentidos. Em seu livro, Anderson defende também a importância do capitalismo editorial e das comunidades de leitores para a consolidação de uma ideia de nacionalidade; hoje, as redes de informação continuam criando suas próprias comunidades internacionais de consumidores de notícias, verdadeiras ou falsas, e redefinindo o curso dos debates políticos em diferentes países.

Aí, o nacionalismo ganha tons tóxicos e reaparece como subtexto de eleições nacionais – EUA e Índia, Itália e Brasil, entre outros tantos exemplos –, na votação do Brexit e nos debates em torno do aquecimento global. Ecoando seus mantras, massas digitais de humanos e robôs impactam a governança global; a mais recente crise europeia da imigração foi campo fértil para manifestações de um nacionalismo tão feroz quanto racista e, na era da opinião pessoal, mesmo alguns de nossos pequenos líderes se posicionaram pelo Twitter perante esses grandes temas.

Como título da 21ª Bienal Sesc_Videobrasil, Comunidades imaginadas resume uma investigação em torno da presença de certas preocupações comunitárias nas produções artísticas do Sul global. A arte, tradicionalmente convocada ao exercício imaginativo do nacionalismo a fim de fornecer as imagens que lhe dão substância, aqui aparece em chave invertida, nas sombras dos monumentos e nas lacunas das imaginações oficiais. Nesse sentido, a presença, pela primeira vez, de artistas e coletivos de povos originários e indígenas de diferentes países se destaca nesta edição, marcando um alargamento das fronteiras do Sul abrangido pela convocatória.

Fundamentalmente nações sem Estado, maoris, guaranis e matis são alguns dos povos representados na exposição e em seu programa de vídeos, um gesto inicial no sentido de dar ouvidos à vibrante produção contemporânea do mundo indígena. Tendo em vista o caso brasileiro, em que a imagem de um índio genérico foi evocada ao longo de décadas como símbolo das origens do país e da identidade de um nacionalismo mestiço, a exibição dessas obras busca lançar luz sobre suas poéticas contra-hegemônicas e suas redes de legitimação, em um momento em que, para além do mundo da arte, vivemos violentos ataques aos direitos indígenas e à integridade de seus territórios.


O partido curatorial descrito na convocatória da 21ª Bienal mencionava o ressurgimento do nacionalismo neste começo de século, e as comunidades nativas, originárias ou indígenas, como temas iniciais de interesse. Em um processo desse porte, no entanto, um partido jamais abolirá o acaso; a seleção apresentada é, assim, naturalmente mais ampla e diversificada que o texto que a anunciava. Ela inclui, por exemplo, de modo inesperado e bem-vindo, uma série de trabalhos de grupos ativistas e movimentos sociais. Em vídeos, publicações, ações com o público e serviços oferecidos à população trans, eles buscam assinalar disputas sociais correntes e ampliar, a partir de sua inserção em circuitos institucionais de arte, os sentidos das comunidades do presente.

As obras dos 55 artistas participantes da Bienal estão distribuídas entre o Sesc 24 de Maio e este catálogo. Após o processo de seleção, foi possível reuni-las em cinco grupos, no intuito de delinear os eixos conceituais desta edição. Com limites naturalmente porosos e interpenetrando-se a todo tempo, esses eixos apontam para diferentes exercícios de imaginação comunitária e propõem um circuito de sentidos que se reflete, de modo aproximado, na disposição das obras no espaço expositivo.

Esse circuito destaca, primeiro, a capacidade que certos objetos têm de evocar a história, como se guardassem as memórias de seus diferentes proprietários ou refletissem um cruzamento de significados que combina arte, tradições nacionais e cultura de massa. Os conflitos entre passado e futuro que dão forma ao presente aproximam um segundo conjunto de obras, no qual a permanência da tradição, às vezes como trauma, e a ideia da moradia como lugar simbólico das raízes são temas-chave. As raízes, desta vez lançadas sobre o território, e os conflitos pela posse e pela exploração da terra que estão na base da experiência social no Brasil (assim como em outros países do Sul) aproximam um terceiro conjunto de trabalhos.

Os dois núcleos finais ultrapassam o espaço expositivo e ocupam outros andares do Sesc 24 de Maio, além do programa de vídeos desta edição. Com forte presença de produções negras e LGBTQI+, o primeiro inclui obras que reverberam mais diretamente o presente e seus conflitos. O último conjunto, com obras de imigrantes de diferentes origens, traz relatos sobre experiências de deslocamento ou exílio, nos quais a perspectiva estrangeira enseja a revisão do passado e dos horizontes de futuro. As propostas de ações envolvendo o público, em particular, tratam de ativar diretamente essas reflexões e, junto aos programas públicos, amplificar os desdobramentos desta Bienal.

Além dos vídeos, pinturas, instalações e demais obras dos artistas participantes, esta edição traz também uma seleção de joias africanas em metal da coleção do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP) e uma seleção de capas de O Snob, jornal caseiro que circulou entre 1963 e 1969 no Rio de Janeiro e foi um dos precursores da imprensa LGBTQI+ no Brasil. As joias, produzidas por grupos ashanti, fon e iorubá, foram integradas ao MAE-USP no fim dos anos 1970 e são exibidas, em sua maioria, pela primeira vez. A seleção das peças ficou a cargo do pesquisador e curador Renato Araújo que, desde 2003, trabalha com a coleção do museu. Para as capas de O Snob, que tem todas as suas edições guardadas no Arquivo Edgar Leuenroth, na Unicamp, a referência foram as pesquisas de Rogério Costa, que gentilmente cedeu o vasto material levantado durante sua investigação.

Joias e publicações, evocando aqueles que as usaram ou leram, permitem vislumbrar as variadas formas que assume nossa imaginação comunitária. Nesta exposição, reforçam também a dimensão museal de uma bienal. Em tempos em que nossos museus queimam, a presença de coleções guardadas em arquivos e museus universitários dá nova mostra da importância dessas instituições para a vida cultural do país.


De forma semelhante, os programas públicos da 21ª Bienal buscam, nas interseções entre diferentes campos e saberes, o diálogo com o pulso do presente que caracteriza suas escolhas curatoriais. O mundo que parece colapsar à nossa frente, varrido por ventos retrógrados, o faz em reação às imensas conquistas das últimas décadas. Depois de uma série de avanços no território dos costumes e das chamadas micropolíticas, que encontram no campo da arte toda uma revisão histórica sob um ponto de vista decolonial – incorporando, de maneira decisiva, paisagens estéticas/éticas produzidas no chamado Sul global –, testemunhamos uma espécie de contrarrevolução, que em parte responde à visibilidade alcançada por uma multiplicidade de existências antes silenciadas. Essa conjuntura ultrapassa a vida social e política: tem o poder de embotar também a imaginação, a subjetividade e o inconsciente, o que é um de seus aspectos mais desafiadores.

Desdobrando-se em um ciclo de debates, conversas com artistas, visitas guiadas e performances, os programas públicos elegem e buscam vocalizar perguntas que ecoam certas urgências do nosso tempo. Como inventar uma nova imaginação política? Que sentido as práticas de povos indígenas e grupos LGBTQI+ podem dar à ideia de comunidade? Qual o papel, em tempos de subjetividades colonizadas, da produção simbólica dos movimentos sociais? Quais insurreições micropolíticas pedem passagem neste momento? Com essas indagações, buscamos acolher vozes e corpos sensíveis aos impasses de nossa época, a fim de imaginar – e inventar, partilhar, trocar –, juntos, outras e inauditas formas de habitar o porvir.


A exposição e os programas públicos são acompanhados por duas publicações que ampliam as reflexões do projeto, documentando as obras escolhidas e oferecendo diferentes pontos de vista sobre comunidades imaginárias e imaginações comunitárias. Além deste catálogo, elas incluem um livro que reúne uma série de contribuições teóricas dos participantes dos programas públicos da 21ª Bienal, a ser lançado no final de 2019.

Com o deslocamento do Videobrasil para o modelo de bienal, consideramos importante introduzir, no catálogo, ensaístas, pensadores ou escritores não diretamente ligados à exposição (ou a algum de seus artistas em especial), mas que buscam adensar as discussões relacionadas e oferecer uma perspectiva sobre questões politicamente relevantes. A publicação torna-se uma extensão reflexiva, para além de um registro, da bienal.

Nesse sentido, convidamos para escrever pessoas vindas de geografias e contextos culturais e políticos diversos: Gladys Tzul Tzul, ativista e socióloga maya k’iche’; Erica Moiah James, historiadora da arte e professora da Universidade de Miami; e Bonaventure Soh Bejeng Ndikung, curador, biotecnólogo e diretor artístico da SAVVY Contemporary de Berlim. Seus ensaios enfatizam formas distintas de construir vínculos e comunidades, e de resistir aos modelos de pertencimento do Estado nacional e aos discursos nacionalistas que têm ressurgido com força, através de partidos de ultradireita e de políticas econômicas neoliberais.

Tzul Tzul parte de sua experiência pessoal para se perguntar sobre as implicações de pensar a política a partir de uma chave comunal, destacando como os modelos de autorregulação social das práticas comunais indígenas permitem ressignificar os conceitos de riqueza, propriedade e uso. A autora deixa claro que, ao falar do comunal indígena, não se refere a uma identidade ou a uma essência, mas a uma estratégia e “uma forma particular de relação social” que permite construir uma vida compartilhada e dinâmicas de autonomia, excedendo e desafiando as formas patriarcais de governo estatal e suas políticas de representação, frequentemente colonialistas ou paternalistas.

No segundo ensaio, James observa como os espaços queer permitem imaginar novos territórios de existência, para além dos limites normativos das sociedades do Caribe. Seu texto oferece uma reflexão sobre o Caribbean Queer Visualities, projeto curatorial recente, exposto na Irlanda e na Escócia, que propôs um ambicioso panorama das intersecções entre arte e sexualidades dissidentes, reclamando a imaginação como espaço de regeneração afetiva e de luta social.

A impossibilidade de fazer a exposição circular pelos países do Caribe, por conta de problemas econômicos e, sobretudo, do conservadorismo, evidencia as dificuldades que as instituições locais enfrentam, ao mesmo tempo em que revela a força da estética, ao imaginar um Caribe onde a reivindicação da autodeterminação sobre os corpos se converte em uma forma de solidariedade intergeracional, e ganha significação política ao reclamar noções alternativas de pertencimento.

Finalmente, Ndikung escreve sobre o conceito de “des-outrização”, uma noção fundamental no programa que o espaço de arte SAVVY Contemporary vem desenvolvendo em Berlim ao longo dos últimos anos. Como ele coloca, “a des-outrização começa pelo reconhecimento de atos e processos de outrização”; isso significa fomentar processos de resistência a ser “outrizado”, imaginando alternativas à construção da identidade social e encorajando outras formas de filiação e produção simbólica. De modo similar, reagindo ao ressurgimento de exposições que enfatizam determinadas regiões geográficas, o autor observa como, em muitos casos, isso “tende a se tornar uma compensação pela falta de um envolvimento adequado com a questão da diversidade no nível da programação, da equipe de trabalho e do público”.

Este catálogo inclui também uma intervenção especial de Marilá Dardot. Nos últimos anos, a artista desenvolveu uma série de desenhos para colorir com base em imagens jornalísticas que frequentemente mostram representações de violência e morte. A artista emula o formato best-seller do livro de colorir, que acumula funções pedagógicas, de entretenimento familiar e até mesmo de terapia contra o estresse. No catálogo, assim como na exposição da 21ª Bienal, os desenhos de Dardot reproduzem uma série de notícias sobre situações ocorridas no Brasil entre 2017 e 2019 – período marcado por um virada conservadora na orientação política do país –, incluindo sempre a data e a fonte de onde cada imagem foi tirada. Assim, a artista nos convida a estabelecer uma relação própria com essas representações, que também poderão ser coloridas nas salas de exibição da 21ª Bienal.

ASSOCIAÇÃO CULTURAL VIDEOBRASIL. 21ª Bienal de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil. De 9 de outubro de 2019 a 2 de fevereiro de 2020. p. 41-45. São Paulo, SP, 2019.

Texto institucional Danilo Santos de Miranda, 2019

Outras Comunidades

A ideia de Estado-nação orienta o modo como um país é governado. Por meio dela, a população é levada a crer no pertencimento a uma comunidade coesa, que assim se reconhece por compartilhar a mesma língua, cultura e história – geralmente em detrimento das tradições minoritárias. Esse mesmo Estado conduz seu povo através da construção de uma certa identidade nacional, a qual resulta de práticas simbólicas voltadas a inculcar valores e formas de vida na população, ao mesmo tempo em que forjam a continuidade de um passado supostamente comum.

Se, por um lado, o capitalismo estimulou a formação do Estado-nação, por outro, ele também o tensiona e o recria ao sabor dos seus interesses. Com a explosão do livre mercado mundial, a soberania que o define se vê abalada na base. A dinâmica do capital faz com que as fronteiras entre os países sejam relativizadas. Marcada pelo constante e intenso deslocamento de coisas, pessoas e ideias, a lógica mercantil espraia-se por todo o globo, impondo critérios de otimização, quantificação, produtividade e lucratividade.

Contudo, ao mesmo tempo em que os países têm suas fronteiras borradas por injunções financeiras
e mercadológicas, nacionalismos de cunho xenófobo ressurgem por toda parte. Um de seus sintomas aparece na repulsa ao estrangeiro, algo que se acirra com os atuais movimentos migratórios – por sinal, desencadeados pelo próprio descontrole do sistema de produção e acumulação capitalista e pelos conflitos que ele gera. Diante desse dilema, cujas consequências vão se revelando catastróficas, somos convocados a repensar a pertinência da organização do Estado em função de valores nacionalistas.

Sensível a tais problemáticas, o campo da arte mostra-se favorável à imaginação de outras maneiras de constituir comunidades, baseadas em identificações e processos decididamente alternativos aos da
pátria – tendo em conta as injustiças e dívidas que os Estados nacionais carregam consigo, sobretudo no que se refere aos “involuntários da pátria”, conforme expressão do antropólogo Eduardo Viveiros de
Castro. É dessa delicada conjuntura histórica que provém o recorte curatorial da 21ª Bienal de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil.

Comunidades imaginadas reúne experiências artísticas dispostas a conceber o comum e seus respectivos laços a partir de aspectos e compromissos não hegemônicos. Na condição de instituição sociocultural afeita ao exercício da imaginação de possíveis, ao Sesc compete repercutir e mediar perspectivas plurais, com vistas a contribuir para o processo de reavaliação e reinvenção do nosso lugar no mundo.

ASSOCIAÇÃO CULTURAL VIDEOBRASIL. 21ª Bienal de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil. De 9 de outubro de 2019 a 2 de fevereiro de 2020. p. 33. São Paulo, SP, 2019.