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COMUNIDADES IMAGINADAS

Em dezembro de 2017, a Organização Mundial do Comércio, reunida em Buenos Aires, lançou um comunicado em que criticava a “tendência a rejeitar o estrangeiro, o importado, rejeitar o global”, vista na política comercial dos EUA e de outros países associados à OMC. Em abril de 2018, palestinos prepararam uma grande manifestação contra os setenta anos de Israel e da Nakba, enquanto a Itália, a Inglaterra e outros países da Europa veem ressurgir movimentos que reivindicam a herança fascista do continente. Por todos os lados e a partir de diferentes matizes do espectro político, o nacionalismo retorna como tema-chave para a compreensão das disputas que moldam este nosso tempo, deixando no ar a pergunta sobre a duração e o alcance desse novo ciclo regressivo.

Nesse contexto, a 21ª Bienal de Arte Contemporânea Sesc_Videobrasil | Comunidades imaginadas toma de empréstimo o título do clássico estudo de Benedict Anderson sobre o surgimento do nacionalismo para investigar como poéticas oriundas do Sul vêm elaborando o fenômeno. Interessa, no entanto, não nos atermos somente às comunidades imaginadas em torno de Estados-nação e à ressurgência do nacionalismo. Aqui, ultrapassando o partido de Anderson, é pertinente considerar também outras comunidades, criadas por imaginações distintas daquelas que fundaram os Estados nacionais.

Ao estabelecer um chão comum a todas as imaginações comunitárias, o partido curatorial da 21ª Bienal relativiza, por um instante, as antinomias que até hoje orientaram e fundamentaram as edições passadas do Festival, em nome de um exercício imaginativo de maior alcance. Assim como Pier Paolo Pasolini concebeu um Terceiro Mundo transnacional, que começava nas periferias de Roma e se estendia aos países então incluídos nessa categoria, aqui é possível incluir comunidades que existem às margens dos Estados-nação ou em suas brechas. Contemplamos, desse modo, comunidades de povos originários, organizadas sem ou contra um Estado; comunidades multiespécie, tal como imaginadas pelo perspectivismo ameríndio; comunidades religiosas ou místicas, concebidas a partir de compreensões transcendentes da existência; comunidades divididas por fronteiras desenhadas pelo colonialismo ou refugiadas de seus territórios originais por qualquer motivo; comunidades fictícias, ou utópicas, ou clandestinas, que gerem práticas políticas minoritárias, ou aquelas constituídas nos universos subterrâneos de vivências sexuais e corpos dissidentes, contra-hegemônicos ou não ocidentais.

Em seu livro, Anderson constata que “a condição nacional é o valor de maior legitimidade universal na vida política dos nossos tempos”. Tendo em vista essa afirmação, cumpre questionar-se sobre como operam as simbolizações nas margens dessa “legitimidade universal” política produzida pelas identidades nacionais. Se o partido do Sul trata de investigar a produção simbólica das margens dos discursos hegemônicos do poder, onde se situam as poéticas oriundas da margem da margem? Que centro de poder lhes serve como modelo? Almejam alcançá-lo, como algumas daquelas oriundas do Sul? Espelham-se em alguma história (da arte?), articulam formas de distinção? Em nome de que esses homens e mulheres continuam a simbolizar, a despeito de tudo? Que línguas e que linguagens a imaginação dessas comunidades sem Estado mobiliza? Sem abandonar a ambição panorâmica do evento nem seu habitual foco geopolítico, esta edição pretende alargar o repertório de questionamentos que orientam nosso trabalho, buscando, com isso, ampliar a diversidade das vozes que ouvimos.

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